Monday, November 16, 2009

Lançamento histórico! Terreiro da Aruanda, com Mestre Yapacani (Matta e Silva) e Mestre Arapiagha (Rivas Neto)



Os cânticos entoados nas tradições da Umbanda esotérica ou iniciática jamais foram gravados antes em qualquer mídia fonográfica, quer seja em vinil ou cd e raramente se conseguia encontrar alguém que conhecesse ou soubesse cantar corretamente as invocações desta corrente importantíssima do Movimento Umbandista.

Na verdade, os aspectos esotéricos da Umbanda se perdem na noite dos tempos e esta escola umbandista possui, dentro desse movimento espiritual brasileiro quase 80 anos de história revelada e não poderia ser deixada de lado como foi por muitos anos, no que se refere aos registros sonoros de sua manifestação de cantos de louvação e devocionais.

Por isso, a Ayom Records orgulha-se de lançar esse registro precioso de dois dos maiores sacerdotes das religiões afro-brasileiras: Mestre Yapacani e Mestre Arapiagha, juntos num disco histórico, onde a Escola Esotérica lança as primeiras sementes do que se tornaria a Escola de Síntese, sua mais natural decorrência.

Mestre Arapiagha no templo da Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino
Mestre Arapiagha, no templo da Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino, canta com seus discípulos num registro emocionante e transcendental. Cânticos calmos, sem atabaques, verdadeiros convites á meditação e á reflexão.
Este é o primeiro volume de uma série de cinco discos, onde os principais cânticos e invocações de Pretos-Velhos, Caboclos, Exus e Crianças são registrados pela primeira vez. Ao final da coleção será lançado um livreto com a história e fotos raríssimas da Escola de Síntese, sua origem e seu futuro.

Mestre Yapacani e Sacerdotisa Yaná

Em 1979, mestre Arapiagha gravou seu velho mestre, juntamente com sua esposa, a sacerdotisa Yaná (Vó Salete) um registro sensível e raro, dos pontos cantados da tradição da Umbanda esotérica. Pontos que até hoje estavam desconhecidos da grande massa de Umbandistas.

Pai Rivas nos cedeu a antiga fita cassete em que estes pontos foram registrados num gravador de mão e os estúdios da Ayom Records fizeram uma recuperação no áudio, com limpeza de freqüências e chiados, para que todos os irmãos da Umbanda possam conhecer o modo de se cantar e de se louvar os ancestrais nas tradições da Umbanda Esotérica e na Umbanda de Síntese.

Um registro imperdível, para quem quer conhecer mais uma face musical dessa nossa Umbanda de Todos Nós!

Faixas:

Com mestre Arapiagha:

01. Lá no Cruzeiro das Almas
02. 02. A cobra Piou
03. Agô Yê
04. Desceu da sua Aruanda
05. Eu vi Pai Zé de Angola
06. No Cruzeiro das Almas eu vi
07. Seu Galo Canta no Terreiro da Aruanda
08. Candieiro meu, Ilumina a Fé
09. Pai Jacó é Congo da Aruanda
10. Pai Joaquim desce da Cachoeira

Com Mestre Yapacani:

11. Terreiro da Aruanda
12. Vivas as Almas e o Rosário de Mariah
13. Vem de tão longe
14. Preto-Velho caminhou
15. A Fumaça do Cachimbo do Vovô
16. Meu Pai Preto que vem de Angola
17. Na Minha Umbanda de Pai Oxala
18. O Céu está Coberto de Estrelas

Para adquirir este disco e outros de nosso catálogo, escreva para:

ayom77@gmail.com

ou ligue: 011-3499-6152 ou 9761-8058

Para ouvir Pai Rivas (Mestre Arapiagha) e Pai Matta (Mestre Yapacani) cantando "Desceu da Sua Aruanda" e "Na minha Umbanda de Pai Oxalá", clique abaixo:


Sunday, November 01, 2009

II Congresso Brasileiro de Umbanda do Século XXI

2º Congresso de Umbanda do Século XXI - Do Sincretismo à Convergência
13, 14 e 15 de novembro de 2009
O primeiro Congresso de Umbanda deste século, realizado no ano passado na FTU foi um grande sucesso. Recebemos professores e pesquisadores de vários estados brasileiros que compartilharam suas visões e perspectivas sobre as religiões afrobrasileiras e seus caminhos nos últimos 100 anos.
Estabelecemos um modo novo de lidar com as questões pertinentes à nossa comunidade umbandista porque fomos capazes de realizar um diálogo produtivo entre o conhecimento acadêmico e espiritual tradicional.
No 2º Congresso de Umbanda do Século XXI temos novamente a oportunidade de explorar conceitos, questionar teses e articular novos saberes. O tema escolhido para esse ano é desafiador e necessário. Começaremos pelo processo do Sincretismo religioso que pode ser visto como uma forma de aproximação simbólica entre culturas espirituais diferentes na forma, e caminharemos até a idéia de Convergência como modo de perceber a universalidade do processo místico e a integração existente entre as várias religiões brasileiras.
Umbanda, Candomblé, Tambor de Mina, Catimbó-Jurema, Toré, Xambá, Terecô, Batuque, Omolocô e várias outras tradições espirituais fazem parte do universo religioso brasileiro e nos proporcionam vínculos e afinidades que podem ser utilizados para o fortalecimento de nossas identidades coletivas. Enxergar os laços que nos unem e trabalhar pelo respeito à pluralidade é um dos objetivos do nosso congresso. Para tanto, contaremos, assim como no ano passado, com a presença de grandes pesquisadores de renome internacional, além da participação efetiva de representantes das várias comunidades.
A FTU – Faculdade de Teologia Umbandista, apresentada à sociedade em 2004, constitui-se como um espaço de estudo, reflexão e aproximação da práxis religiosa com o conhecimento acadêmico. Cada vez mais nossa comunidade se torna consciente de sua capacidade e autonomia na produção do conhecimento. Nossa contribuição reflete ainda nossas convicções espirituais e favorece uma visão mais integral da realidade. Temos, portanto, a satisfação de compartilhar os frutos do nosso trabalho convidando a todos para mais um grande encontro.

Programação Geral
13/11/2009 - sexta-feira
Manhã
Oficina de Música: "A Música Sacra dos Cultos Afro-Brasileiros" - Com Mestre Obashanan
Oficina de Ervas: "Mesa de santo e sincretismo"
Tarde

14h30-16h00
Visita aos Pôsteres
16h00-18h00
Conferência: "O Reino da Jurema e a pesquisa etnográfica" - LUIZ ASSUNÇÃO
Noite
19h00-20h30
Conferência: "O sincretismo hoje: entre práticas e discursos" - MARISTELA OLIVEIRA DE ANDRADE
20h30-21H00
Abertura / Saudações - FRANCISCO RIVAS NETO
21H00
Coquetel
14/11/2009 - sábado
Manhã
09h00-09h50
Conferência: "Estado laico no Brasil: questões de sincretismo e integração" - ROSELI FISHMAN
09h55-10h45
Conferência: "Complexidade e cidadania" - JOAQUIM GONÇALVES BARBOSA
11h00-11h30
Debate
11h30
Almoço
Tarde
13h30-14h20
Conferência: "Sincretismos, divergência e convergência no campo religioso afro-brasileiro e neopentecostal" - VAGNER GONÇALVES DA SILVA
14h25-15h15
Conferência: "Catolicismo e as religiões afro-brasileiras" - ANDRÉ RICARDO SOUZA
15h20-16h10
Coffee Break
16h15-16h55
Conferência: "Músicas e Performances no Feminino: Princípios Teológicos e alguns idiomas presentes no Culto da Jurema Sagrada" - LAILA ANDRESA CAVALCANTE ROSA
17h00-17h50
Conferência: "Sincretismo: um diálogo entre ciência e religião" - CASSIANO TERRA RODRIGUES
17h55-18h25
Debate
Noite
18h30-19h20
Conferência: "Do sincretismo à convergência" - FRANCISCO RIVAS NETO
15/11/2009 - domingo
Manhã
09h00-09h50
Conferência: "Ritmos da identidade: mestiçagens e sincretismos na cultura do Maranhão" -
CARLOS BENEDITO RODRIGUES DA SILVA
09h55-10h10
Perguntas e Comentários
10h15-10h45
Coffee Break
10h50-11h30
Conferência: "A Tecnologia como ferramenta de aproximação no processo sincrético nas Religiões Afro Brasileiras" - MARIA ELISE MACHADO RIVAS
11h35-11h50
Perguntas e comentários
11h55-13h00
Conferência: "O sincretismo na dialética do conhecimento" - ROGER TAUSSIG SOARES

VEja mais detalhes aqui:

http://www.ftu.edu.br/congresso2009/

Monday, October 19, 2009

Pambu Njila - 2003

Pambu Njila - TBS - 2003


01.Nileodun; 02.Dundurê; 03.Meximaville; 04.Jamukangue; 05.Pambu-njila; 06.Uembesila; 07.Lajakala; 08.Uesaba; 09.Tambala; 10.Zunga Ao To; 11.Mukusete; 12.Tunde-Tunde; 13.Tundaé;


Como todo disco da TBS, muitos criticam a qualidade de áudio. E como sempre, nós dizemos que a TBS sempre fêz um bom trabalho de divulgação em suas produções que já se tornaram emblemáticas. Aproveitamos esta postagem - como sempre fazemos - para falarmos um pouco de nossa vivência com os cultos Angola/congo.


Muitos irmãos nos escrevem em PVT, ou nos perguntam na FTU - depois dos ritos - sobre as nações Bantu e os cultos Angola/Congo e mesmo Cabinda. A vivência que tivemos nesses cultos (além de informações familiares) foi feita com Mãe Maria Helena Batista (Taualuangi), que foi nossa mãe de santo antes de conhecermos Mestre Arapiagha. Ela foi feita no Omolokô mineiro, mas teve sua iniciação primeiramente na Angola por ancestralidade do Tumbensi e na Umbanda via terreiro do famoso Sr. Caboclo Inko, grande referência da Umbanda paulista nos anos 30/40.


Por isso apenas apresentaremos um estudo feito com base em nossa vivência sobre a religiosidade Bantu na África e suas decorrências no Brasil. Assim, pretendemos contribuir com o nosso passado para quem quiser saber destas informações, que evidentemente podem ser completadas e mesmo corrigidas por outros irmãos.


Na verdade são vivências que por nós estiveram “congeladas” por muitos anos até nosso mestre “retomar” algumas práticas rituais que são hoje realizadas na OICD e a ele agradecemos por validar essa nossa vivência em outras escolas com o sentido depurado de conexão mais lídima e sem conflito com as tradições que nos relacionamos hoje. Como o assunto é muito extenso, utilizaremos esta postagem para dividirmos um pouco nosso vivencial. Como todo conhecimento digno de lembrança aqui está somente um tanto de idéias daquilo que aprendemos nos outros. E por lembrarmos, deixamos a quem refletir, após a leitura, o passar adiante após uma importantíssima consulta nos nomes ao final do texto.
SOBRE AS LÍNGUAS BANTU
O termo Bantu foi utilizado pela primeira vez por Willelm Bleek, filólogo alemão, para caracterizar e definir as línguas africanas que utilizam a palavra “MU-NTU (pl. “BA-NTU”) para designar a pessoa humana. Nessas línguas, agrupadas sob o termo genérico “BA-NTU” o radical é “NTU” e o prefixo plural “BA” – Lembrando que “Ba” é utilizado como plural em várias línguas pré-históricas, pois “Ba” refere-se ao número 2 e possui a capacidade de duplicar a natureza do verbo e da ação. É por isso que, arqueometricamente, “BA” concentra em si o “Y”, dando, por exemplo, origem à lenda do “Beth-EL” em hebraico, como a Morada da Divindade.




Outros filólogos, como Joseph H. Greenberg (que foi o primeiro a identificar os limites dessa família, que ele chamou de línguas nigero-cordofanianas em seu livro Languages of Africa) e John Bendor-Samuel (que introduziu o nome nigero-congolês para toda a família, o qual está atualmente em uso até hoje entre os línguistas) após anos de estudo encontraram relações importantes entre os vários dialetos africanos. Um dos maiores avanços no estudo das línguas subsaarianas veio com o trabalho de Koelle, em sua obra “Polyglotta Africana” de 1854 onde tentou uma classificação cuidadosa em grupos, contribuindo em muito para a classificação moderna, embora o primeiro registro das línguas nigero-congolesas como uma família linguística pode ser encontrada no próprio Bleek (1856), que percebeu que as línguas atlânticas usam prefixos tal como muitas línguas do centro africano. Algumas décadas mais tarde, o trabalho comparativo de Meinhof, estabeleceu as características que reconhecem nas línguas Bantu uma unidade linguística.

As línguas Bantu constituem por volta de 500 línguas aparentadas, como demonstrou Meinhof, línguas essas faladas por povos negros que vivem na África sub-saariana e por ilhas culturais no sul da Índia (vejam texto sobre a Índia negra em nosso blogue). Compartilham de um tronco lingüístico comum, o Proto-Bantu. Assim, quando nos referimos aos Bantu, nos remetemos a povos e etnias cujas línguas têm um tronco comum e não a povos com traços raciais próximos. O que liga os Bantu entre si é uma língua oriunda do mesmo tronco e que são gramaticamente aparentadas, pois, em todas elas as palavras são agrupadas por classes em função de seu uso e natureza.
O universo Bantu ocupa grande parte do continente africano, do centro em direção ao sul, sendo uma família lingüística utilizada por milhares de falantes. Foram os Bakongos e os Ambundos os dois povos que vieram em número mais expressivo para o Brasil, e que aqui deixaram sua marca, assim como em toda a América, continente que ajudaram a construir. Eram numericamente superiores e por isso imprimiram suas características culturais a outros povos Bantu (como os Kassanje, Benguela, Moçambiques, Makuas, Kabindas, Munjolos etc) que chegavam em menor número.

Suas línguas eram o Kikongo e o Kimbundo, faladas respectivamente, pelos Bakongos (Bakongo = plural de kongo) e pelos Ambundos. Os Ambundos são o segundo maior grupo étnico de Angola e os Bakongos o terceiro. O primeiro grupo é o dos Ovimbundo e falam o Umbundo. No Brasil, principalmente no candomblé Congo-angola se faz ainda uso dessas línguas que vieram com os africanos. O Kikongo e o Kimbundo são as duas línguas mais usadas nos rituais e no cotidiano das casas de santo de raiz Congo-angola (a possível exceção seria a nação Cabinda no sul do país, mas a língua ritual que utilizam é o Yorubá de origem Ijexá). Atualmente são utilizadas como veículo de comunicação em Angola, nos dois Congos, e em países limítrofes.
Muitos dos africanos deste grupo quando aqui chegaram já vinham cristianizados, pois o contato deles com os portugueses aconteceu ainda no século XV. Alguns eram realmente convertidos, diferentemente de outros que eram católicos apenas por batismo obrigatório – prática usada no interior dos navios negreiros com anuência da igreja - mas muitos por devoção por terem se convertido ou pelo menos tido algum contato com o cristianismo em suas terras de origem, ou ainda em Portugal, onde havia também havia milhares de escravos e onde muitas manifestações culturais brasileiras tiveram origem, tais como as Congadas. Aqui estão as raízes do Omolokô: em Portugal e não no Brasil. Mas este é um outro assunto que por hora não abordaremos.
AS DIVINDADES PARTE 1
As divindades que chegaram ao Brasil são conhecidas como Bakissi (plural) ou Inquisse (singular). Há ainda algumas casas que os definem como Akixi ou Mukixi (mascarados), lembrando que nos cultos Bantu originais há a presença de máscaras rituais (bem diferentes dos cultos Yorubás) e de assentamentos e fundamentos feitos somente em barro ou madeira, já que a cultura religiosa Bantu (e mesmo a Yorubá) desconhecia a louça, que foi introduzida no culto – assim como as roupas de renda, inclusive nos cultos Gêge/Yorubanos – por influência cultural Européia. Enfim, temos o termo Akixi para os Ambundo e Nkisi para os Bakongo.



O Inkissi só recebe esse nome quando se particulariza no transe ou no assentamento, feito em um cesto ou em um boneco, em geral cheio de pregos (símbolo do poder coletivo da comunidade) e com a barriga furada onde são colocadas as ervas e o fundamento secreto de cada divindade. Antes desse processo de individualização, eles são chamados de Hamba, em seu estado não diferenciado.

Vários povos Bantu reconhecem em geral o culto ao Inquisse, aos Nkita e aos Simbi. Estes dois últimos referem-se a divindades terrestres (Nkita) e fluviais e marítimas (Simbi). As qualidades e funções desses espíritos, quase sempre protetores, varia de povo para povo, sendo que entre alguns o Nkita é sempre agressivo, enquanto que para outros a agressividade cabe ao Simbi. Para uns o Simbi é aquático e o Nkita terrestre ou vice-versa. Apenas para os três povos de Cabinda, cultuadores do Nkissi é que estes sempre são benéficos, com exceção do Nkondi e do Nkossi, que são por sua vez, utilizados pelos Bandoki para feitiçaria. Afora estes, todos tem o poder benevolente de curar, trazer prosperidade, colheitas fartas e chuvas benfazejas. Os Nkita, os Simbi e os NKissi fazem parte do cotidiano desses povos e os ajudam a vencer as batalhas do dia-a-dia.
Para os Bauoio (Woio, singular) os Simbi exercem um papel subalterno, pois são como crianças enviadas dos grandes espíritos da terra, os Bakissi ba si. Aí está uma das origens da ligação dos espíritos de crianças (os kafiotos, candengos ou monandengues na Angola que são confundidos com os Erês da nação Ketu, embora os Erês sejam uma categoria de divindades completamente dissociadas de todas as outras, que pouco tem a ver, como muitos pensam, com o orixá Ibeji) com as divindades fluviais e marítimas, como Dandalunda, Kaia, Kissimbi e outras.

O elemento principal da representação do Nkissi é uma pedra, retirada do leito de um rio, por pessoas em transe com o espírito. Essa pedra é, quase sempre, colocada num cesto, acompanhada de pemba, argila vermelha, pó de tacula e outras especiarias, tudo regado a vinho de palma e Menga quando a divindade assim o pedir.

Nas tradições do Palo Congo (Cuba) o Nkita é reconhecido e cultuado e no Haiti há o culto aos Simbi. No Brasil apenas o Nkissi é cultuado, sendo a única referência ao Nkita que conhecemos, são informações nos dada por Tata Tawá - quando o conhecemos no Alayandê Xirê - que é membro da tradicional casa do Bate-Folha de Salvador-Ba. O Simbi aparece em algumas cantigas, mas nem sempre é notado pela maioria dos fiéis e sua única ligação é com Kissimbe, um importante Nkissi das águas doces.
Assim os cultos Bantu podem ser definidos – imprecisamente, dada a grande variação religiosa e ritualística existente nesses inúmeros povos – da seguinte forma:

1) Zambiampungu, Nzamé, Zamby e outras centenas de designações, sempre com os radicais “Zam” (nas línguas antigas representa o Sol. Por ex: Sabeísmo, palavra persa surgida da raiz “ZAAB”, significando Deus, divindade, de onde provém todo saber) representando o Deus supremo;
2) Os Hamba (Ou Nkissi, quando individualizados), que são as grandes forças ctônicas, formadoras do universo;

3) Os espíritos elementais da natureza, como os Simbi e os Nkita, sendo os primeiros espíritos aquáticos e os segundos espíritos terrestres;
4) Os espíritos dos antepassados, tanto os bons (os Bakulu) quanto os maus, (os Matebo ou Nkuyu).

Os Inquisse se dividem em famílias, ou seja, não são agrupados em categorias de uma mesma divindade com várias características como acontece com as divindades Yorubá, ou como fazem os Fon, com seus reis divinizados. Assim, vamos encontrar várias divindades aparentadas, com culto e fundamentos específicos e diferenciados. Começaremos com as divindades dos caminhos e das encruzilhadas, que como verão, são várias. Lembrando novamente que estas são as divindades que conhecemos em nossa caminhada pessoal pelos terreiros que conhecemos e pela vivência com nossa primeira mãe de santo, Maria Helena Batista, que era feita em Angola aliado a nossos estudos sobre a religiosidade dos povos Bantu da África.

Por isso muitos destes Inquisses podem ter nomes derivativos da cultura Yorubá, pois como bem sabemos, o culto Angola/Congo tomou como matriz o formato de cultos yorubano e os adotou em seus ritos próprios, na verdade configurando as matrizes das genuínas manifestações religiosas brasileiras. Em outros discosde outras divindades continuaremos com as famílias de outros Bakisse...

Família das Divindades Das Encruzilhadas - Bakissi Da Ingestão E Restituição

Cor: cinza e o azul escuro (ou ainda o roxo) e em algumas tribos, o branco transparente, simbolizando a água (o vermelho e preto é uma influência dos ritos Nagô, não são cores deste Inquisse nos cultos Angola/Kongo em sua origem. Lembrando que há seguimentos da Umbanda – nossa escola mesmo (!) - que se utilizam destas cores para identificar os espíritos-guardiões)
Pambu Njila, Mpambu Njila, Bambogira, Kongogiro, Ganga Pambuguera, Pangira, Ungira, Ungila
Alguns autores – dentre eles Nei Lopes - registram e dão a sua origem como do Kikongo e do Kimbundo com ligeiras variações em seus nomes (provavelmente fruto da mistura de diversas etnias que pronunciavam de modo diferente um nome comum à mesma divindade), na África, no Brasil e em Cuba, no Haiti e em outros países americanos, como a Colômbia e a costa dos EUA. Na verdade, “Mpambu” tanto em Kimbundo quanto em Kikongo significa cruzamento, encruzilhada (sendo que, em Kikongo, há a tradução de “Mpambu” como portão, ou local fechado), e “Njila” significa rua, caminho.
Por extensão, atribui-se em Angola esse nome aos homens andarilhos, os “homens da rua”. O nome “Pomba-Gira” já possui uma relação mais complexa e profunda com o “Pambu Njila” Bantu, acrescido de outras informações que vão de mitos europeus, persas e até indígenas, que, se der, um dia coloco aqui. Sem nenhuma variação mítica, em todos os povos Bantu, a encruzilhada é o umbigo do mundo, o início dos tempos primordiais onde tudo teve começo, o ponto de onde surgem as quatro retas que constroem a encruzilhada. Nzambi criou o mundo a partir desta cruz e colocou Mpambu Njila como o senhor absoluto desses caminhos, fazendo-o segurar os quatro gomos principais do Ngombo (jogo divinatório Bantu, equivalente em importância ao Opón dos Sudaneses – para que Kukiakalunga (Uma emanação de Nzambi. Kukiakalunga é o “Pensador Angolano”, equivalente ao Orunmilá Yorubá) pudesse vaticinar os destinos do mundo. Mpambu Njila é o guardião por excelência.

Aluvaiá

Aluvaiá em Quicongo fonetiza-se “Alu-Vuya”. Algumas nações, como os Tio e os Shona fonetizam Alu, ou Lalu. É uma divindade do Congo. Nas casas Angola/Congo, normalmente as cantigas referentes à Aluvaiá são entoadas em português. É o Inquisse da herança espiritual, da continuidade dos valores. É a divindade que faz os acordos com o inimigo, se fazendo passar por ele, sendo um senhor da infiltração. É quem fecha os acordos e os favorecimentos no terreno da magia.

Mavambo, Mavangu, Marambo, Marabu, Malagô, Navango, Igo Mavan, Marabô, Jiramavambo

O Senhor do Barro, o Conquistador! Nascido dos sonhos de Nkoce. Quando em suas andanças, Nkoce parava para dormir nascia um montículo de barro onde Nkoce colocava sua cabeça. Pela manhã, nesse monte, a cada dia nascia um Mavambo, para vigiar os caminhos dominados pelo vencedor dos Leões. Em várias regiões da África, os muçulmanos eram chamados de Marabu, em alusão ao fato de terem sido conquistadores em várias partes do continente. Há ainda, o termo Barabô, numa clara fusão do Jeje e do Cabinda nos terreiros do sul do país.
Sinzamuzila
O Inquisse que recebe o poder das bebidas que são colocadas na casa de fundamento e nas tronqueiras. Aquele que é sempre seco e que recebe a “Marafa” na cuia de cabaça no ritual propiciatório das escolas Congo/Angola, quando se envia o Sinzamuzilla para a porta. Do quikongo “Sanzala”, bêbado, trôpego.

Malungo
O Inquisse que acompanha as pessoas durante toda a vida. Aquele que envia seus “fantasmas de proteção” (Zumbikukulu) para acobertar quem entra e sai do terreiro, quem nos protege da morte; Aquele que livra do sofrimento. Entre os Lundakioko, “Ma-lunga” homem, amigo etc. Do Kikongo “Lungo” (Ma-lungo, plural), morte, dificuldade.
Jujuku
Aquele que faz magia de morte. Ainda que a palavra “Jujuku” seja uma palavra provavelmente Yorubá (“Juju” = magia com objetos; + “Iku” = morte) que deve ter sido aprendida pelos descendentes Bakongo, este Inquisse é utilizado para feitiços e para tormentos onde são usadas coisas pessoais daquele que se pretende agredir magisticamente.
Kijanjá, Kujanjo
Inquisse da matança e da Lua. É aquele que recebe as oferendas de todos os outros Inquisse e faz a transmissão do poder das oferendas a todos do terreiro. Por isso as matanças são feitas com os animais em ciclos que obedecem às fases lunares. Do Proto-Bantu “Kijan”, Lua, usado ainda hoje pelos jongueiros do Brasil como “Quijama”.
Mavilutango
O Inquisse da dança e do movimento, dizem as lendas que ele é que dá ao ser humano, através da dança, a capacidade de se relacionar com o mundo, com os vivos e os mortos. Por isso é ele quem se encarrega de levar o “Padê”. A palavra “Tango” vem do quibundo “Tangu”, significando pernada. A dança argentina de mesmo nome provém dessa mesma raiz Bantu, cujas origens foram praticamente esquecidas por lá.
Burungangi
Inquisse dos Bakongos, conhecido como “Mbulu” ou “Mbulunganga”. Há uma expressão em Bakongo que significa “Grande força” (Mbulu-nguzu, embora esta palavra se relacione mais com o Inquisse Burugunzo). É aquele que acompanha Biolê e é assentado nos trilhos e nas ferrovias. Nesse caso, este Jila descreve-se como “Mbulu-Nganga”, “Poder do Ferro”. A palavra “Nganga” aponta para termos Bantu relacionados a “derreter”, tais como o quicongo “Kanga” ou o Quioco “Nganga” (metal fundido), e finalmente ao Bantu genérico “Ngangula” (ferreiro). Associa-se ainda, ao Bantu multilingüistico “Nganga”, significando feiticeiro.
Bionatan
Inquisse patrono da alegria. Recebe doces e flores. Algumas traduções do Quimbundo indicam essa palavra como “risada”, bem ao estilo dos Njila. Mas há ainda, traduções do Quicongo: “Mbyantunda”; “Ntunda” – Monte, colina; “Mbya” – coquinho de palmeira, talvez uma aproximação deste Inquisse com o Exu yorubano nas questões dos métodos divinatórios.
Sigatana, Singangara, Siganga, Gangaiô
“Singa” – nome que se dá à vara do canoeiro. No quicongo “Sinda”, se traduz como ir ao fundo d’água; no umbundo “Sinda” refere-se ao ato de empurrar associado ao multi-Bantu “Nganga” – feiticeiro, traduz-se aproximadamente como o feiticeiro que habita o fundo das águas. De fato esse Njila associa-se a Zumbarandá e Kissimbi nos assentamentos destes outros MiInquisse. É invocado simbolizada pelo egan (gorrinho em forma de cone), e pela pena vermelha do papagaio.
Tibiriri, Tonã
Encontra-se menção a este Inquisse nos rituais Angola, embora seja óbvia a sua relação com o Tiriri dos Yorubá: “Ti” – Grande Força; “Riri” – Valor, traduz-se como “Valoroso”. Igualmente Tonã parece relacionar-se com o Lonã (Caminho) Yorubá. Resta descobrir se houve uma aculturação do Nagô sobre os rituais Congo/Angola, ou se na própria África essa divindade se espalhou por várias regiões. Há ainda a o termo Tupi Tiriri (nome de uma ilha), originado de su-y-ry-ry, que significa "pássaro que faz barulho”. Interessante é que em alguns totens deste Inquisse há um pássaro esculpido e ainda, na Umbanda, Tiriri é o guardião de Yori/Ibeji/Oxum (yabá dona de um pássaro), cujo sinal cabalístico de pemba representa hieraticamente, um pássaro. E, finalmente, encontramos na Cabala hebraica o termo “Tirirel” como o demônio guardião de mercúrio (planeta de Yori). Vai saber...
Ngambe, Ingambeiro, Engambeiro
O termo engambeiro ou engambelo é comumente usado pelo Povo-de-Santo como verbo, na flexão engambelar, o que aproxima este Inquisse da representação de Trickster do Exu yorubano. No Umbundo diz-se “Uyambelo” como o presente que se dá ao curandeiro, o que originou, possivelmente a palavra engambelar - de uso nos terreiros quando se dá uma oferenda de paliativo ao “santo” até que se possa dar outra melhor. O povo Ganguela diz “ndambelo” como aquela porção que se dá a mais do que se promete como “agrado” em troca de um favor. Os Soto dizem “Kabelo” com o sentido de contribuição. Ngambe é o nome de um Inquisse onde em sua barriga colocam-se moedas, notas (na antiga África usava-se búzios, marfim e cobre) e outros objetos de valor.
Etajelungi
Mais um Njila que nos parece uma somatória brasileira do fundamento das qualidades de Exu com o de algum Inquisse Congo. “Etá” em quicongo traduz-se como pênis ou como qualquer objeto que lembre o falo. É acrescido, talvez da palavra yorubana “Ijélu” – “I” – (Aquele que); “jê” (é); “Elú” (Índigo, a planta que produz a tinta chamada “Arô” para fazer o “Wáji”, que representa o preto nas pinturas rituais. Entre os Bakongo a representação do falo de alguns Njila é pintada com a cor azul, assim como dissemos na abertura, sobre os Pambu Njila e a influência ritual Yorubá.
Korobo
O Pambu da folha, espécie de “Aroni” angolano, portador da enxada, foi quem ensinou os homens a plantar. É o guardião da “Kisaba Kiasambuka” do Inquisse Katendê. Em quicongo encontramos a palavra “Kulumba”, como “homem rude do mato”, que vaga pelas estradas e “Kuluba” como “enxada velha”.
Niquerô
Inquisse que recebe as oferendas dos Minquisse caçadores. O guardião da fartura e da distribuição de força vital para o terreiro. Em quicongo, “Ndiiki”, aquele que alimenta.
Dundo Salunga, Dundo Calunga
Inquisse do mistério, Pambu do silêncio, o grande peixe que leva as pessoas para o infinito. Sua representação é a de um peixe de madeira onde se colocam mensagens e objetos para os que se foram. Dundo em quicongo é “Ndundu” e refere-se ao peixe Seese. Calunga vem do termo multilingüístico Bantu “Kalunga” que traduz a idéia de grandeza, eternidade, vastidão. Pode ser tanto identificado com o céu e o espaço infinito como com o mar. Kukiakalunga é o Inquisse pensador dos Angolanos (do verbo “Oku-Lunga” – ser esperto), o patrono do jogo Ngombo. No Brasil o termo se ligou ao cemitério e à morte, pois muitos escravos morriam no mar antes de aqui chegarem, embora a idéia de eternidade ainda assim, tenha relação com o local onde habitam os mortos
Naban, Nabondo
Inquisse guardião das árvores. Representado por um pássaro (!). Conforme o quikongo “Na-mbondo”, uma árvore, o embondeiro. Divide seus poderes com Nkondi – Inquisse da família de Nkoce - esta árvore é cultuada principalmente para o feitiço. O embondeiro tem forma de garrafão, e é chamado de “Nkondo Ikuta Mvumbi” (Embondeiro do morto gordo), por que a pessoa contra quem se faça o feitiço, contra quem se prega o prego, morrerá gordo, inchado como o embondeiro. Conforme o prego usado, o efeito, segundo o povo de Cabinda, será mais ou menos imediato, se for de ferro, de cobre ou de alumínio.
Ingué, Izangué, Yanga
Entre os Tchokwe encontramos a divindade Yanga, fonetizada como Yangue em outras tribos do norte de Angola. A lembrança da relação do nome com o Exu Yangi dos Yorubanos é inevitável. No Brasil e em Angola Ingué e Yanga compactuam do fato de não beberem cachaça nem dendê. Veste-se de branco. Na África, como no Brasil, quando está possuindo alguém, não come nada vermelho.
Malusibango
Encontra-se referências rituais de um Inquisse da fortuna em Angola, chamado “Luo-Mbangu”. E encontramos a palavra “Mbangu” em quicongo significando “benesses” ou “ganho”.
Apavenã
É o senhor das oferendas, o portador e o mensageiro. É sempre o primeiro a ser invocado. É o dono do dendê, por isso o carrega na peneira, segundo dizem...
Imbeberiquiti, Imbeperequeté
Inquisse guardião das portas das casas. Seu nome refere-se a alguém sentado, ou baixinho, provavelmente em alusão a postura que assumem as pessoas que o incorporam na África. Do Umbundo “Velekete”, pessoa de estatura baixa, ou alguém de cócoras/sentado.
Manawelé, Mawe, Mavilê
Maville é um dos nomes associados a todos os Njila. Mavile vem do Umbundo “Omavele” ou do Quicongo “Mavele”, plurais de “Avele” que significa leite, provavelmente alusão ao poder de ligação destas divindades guardiãs com o poder criador do esperma.
Kunkurunguanje
Inquisse da palavra e da invocação, das poesias e dos Jamberessu. O que fala pelas outras divindades. Do quicongo “Nkunga”, canto, poema, palavra, associado ao Umbundo “Ulungundju”, ronco ou urro. Traduz-se como “aquele de voz rouca”, característica bem típica da manifestação destas divindades.
Kamungo, Camunga
Inquisse que se esconde, que mora embaixo da terra. Seus fetiches são enterrados e as oferendas colocadas por cima, o que o relaciona aos mortos e aos ancestrais. Em linguagem cifrada os jongueiros chamam “Kamungo” de tambor, em alusão ao orifício do instrumento, onde algo pode se esconder. Há o Nhungue “Kabungu”, o Iaca “Nungo”, o Umbundo “Ochimunga” e Quibundo “Kibunga”, todos significando objetos como chapéus, panelas, baldes, etc, utensílios que identificam algo que cobre. Há ainda a concepção totêmica do rato, animal relacionado, na África aos Njila, assim como o marimbondo e outros, pequenos animais com grande poder de penetração nos lugares. A linguagem cifrada dos velhos feiticeiros velou o significado sagrado deste Inquisse, assim, no Umbundo encontramos a forma diminutiva “Oka-mpuku”, ou “Okamundongo”, rato, camundongo, e ainda, “Mundongo”, como escravo, identificando a função exterior de divindades guardiãs africanas como Exu, Bara e Pambu-Njila.
Jembelu
Classe de Njilas que recebe a menga do sacrifício: são os Yembêle. Do quicongo “Mbe”, som onomatopaico de pancada, associado à raiz “Ele”, líquido, leite, ou algo que escorre, no caso, a menga.
Embarujo
O Inquisse guardião da cura, é quem acompanha Kavungu. Do Umbundo “Uemba”, significando feitiço, veneno e remédio.
Kariapemba
Talvez por influência católica já em terras africanas, ou talvez mesmo em Portugal, essa divindade – assim como outras, tais como Nkoce, conforme veremos – é tida como extremamente maléfica entre os angolanos, havendo a necessidade de benzer-se o ambiente onde se acredite que ele esteja. Seu nome, em Quicongo “Nkadi-a-pemba” e em Quibundo “Kádia-Pemba” não assimila outra tradução que não “demônio”.

Manakó, Manacuco, Mancuco, Mancuce
Invocado no pade, é quem providencia a comida e a bebida de todos. Benéfico, não gosta de bebida alcoólica, gosta de branco. É quem dá a fortuna. Há a relação oculta da fortuna e da bem aventurança com o fato de seu nome bantu ser, no Quicongo, “Nkusi”, no plural “Bakusi”, traduzindo “o pescador”. Há ainda “Munkusi” – “Vento que vem do estômago (flatulência)”, traduzindo o estado de saciedade quando se está farto de comida.
Toroni Batola, Bute
Do Ronga “Mbuti”, bode, animal geralmente usado em sacrifício a estes Njila.
Quitungueiro
Inquisse ou espírito da morte, que se apresenta de todas as formas possíveis, pois não é possível desvencilhar-se dela. Do Quicongo “Kintungu”, tudo que aparece por inteiro, que se desenvolve e que se mostra de várias formas. Associa-se o conceito ao Quibundo “Kitungu”, casebre, mausoléu, ou seja, o lugar onde habitam os que se transformaram: cemitério.

Caracoci
Do Quicongo “Ekala” homem (quando se refere a alguém que não se conhece), associado ao Quibundo “Kutxi, Kuxi”, orelha, de onde vem o português “cochichar”. “Homem que murmura, fala baixo”. Muitas das manifestações mediúnicas e possessões africanas e no Brasil, estes espíritos se comunicam dessa forma.
Para ouvir a faixa 03, "Meximaville", clique abaixo:










Saturday, October 17, 2009

Jim Doney (EUA) e Mestre Obashanan (Brasil)

Jim Doney é um grande baterista americano de jazz que se dedicou, ao final dos anos 80 a pesquisa de harmonias e ritmos antigos da humanidade e usa seu conhecimento para fins terapêuticos. Jim é mestre pelo California Institute of Arts. É compositor, professor e produtor musical. Baseando-se nas leis musicais de Pitágoras, criou um instrumento chamado "Harpa pitagórica" A harpa Pitagórica é uma adaptação moderna do monocórdio original de Pitágoras e seu método de afinação gera potencialmente todas as formas de escalas e a harmonias dos povos do mundo, num só instrumento. Nele se encontram escalas Persas, Egípcias, Negro-africanas, Celtas, Indianas, Chinesas, Indígenas, etc, dependendo da região em que se toca o instrumento.

Jim escutou nosso disco "Ayom Lonan" e ficou admirado com o fato de existirem ritmos de transe tão complexos no Brasil que lhe eram desconhecidos. Lhe dissemos que também somos estudiosos da "música das esferas" e depois de uma breve conversa, Jim nos convidou para uma "Jam" no espaço Kuikakali na Vila Madalena, onde fez algumas apresentações em sua visita ao Brasil. Foram quase oito horas de "viagens" intermináveis de improviso em percussão sacra e harmonias antigas e apesar da comunicação precária de ambos - conversávamos em "portunhol" e em "espaglês" - nos entendemos muito bem. Ficou o registro em vídeo e em áudio para no futuro compormos um disco juntos, quem sabe? Jim tornou-se nosso grande amigo e volta o ano que vem. Já marcamos mais um encontro de música e ritmos ancestrais!
Aqui, Jim fala um pouco da Harpa Pitagórica:




Abaixo, em vídeo, alguns momentos da "Jam" de mais de oito horas:

Improviso 1:



Improviso 2:



Improviso 3:

Sunday, September 13, 2009

Pontos da Jurema - 2008


Pontos da Jurema - cd - Capitania das artes - 2008

01.Depoimento; 02.Abertura; 03.Abertura; 04.Abertura-Jurema; 05.Rei Tupinambá; 06.Saudação a Caboclo; 07.Cabaclo Aracati; 08.Caboclo Saraputinga; 09.Rei Salomão; 10.Mestre José Pelintra; 11.Mestre José Pelintra; 12.Cibamba; 13.Mestre Zé da Virada; 14.Zé Bebinho; 15.Saudação a Codó; 16. Mestre Antônio Olímpio; 17.Mestra Joaquina de Aguiar; 18.Malunguinho; 19.Luziara; 20.Luziara; 21.Mestre Manoel Maior; 22.Mestra Maria do Acais; 23.Mestre Benedita; 24.Mestre Germano; 25.Jurema, ponto de defesa; 26.Jurema pau de ciência; 27.Jurema, pau sagrado; 28.Candeinha; 29.Subida dos Mestres e Caboclos;

A prática da Jurema nordestina, também conhecida como Catimbó, é parte de um longo processo de transformação e assmilações culturais que se difundem pela região, sendo encontrada nas comunidades indígenas e no interior de diferentes religiões afro-brasileiras. A Jurema compõe um complexo de concepções e representações em torno da planta Jurema e se fundamenta no culto de possessão aos mestres, cujo objetivo é curar os doentes e resolver os problemas práticos da vida cotidiana, como os infortúnios amorosos e profissionais. Além dos mestres, outra categoria de espíritos é significativa, o Caboclo, ao qual se atribui identificação indígena e conhecimento de ervas e raízes. Esse complexo inclui ainda a bebida preparada com a casca da Jurema e o uso da fumaça dos cachimbos nos rituais.

A organização interna do culto pod eser dirigida por homens ou mulheres. Os objetos litúrgicos, denominados de marcas, resumem-se no Maracá (uma espécie de chocalho), no cachimbo e na Princesa (uma bacia de louça com fumo). O acompanhamento faz-se por meio de instrumentos de percussão (Maracá e palmas), podendo ainda serem acrescidos os tambores Ilus. A cerimônia ritualística principal, do culto é a denominada mesa, realizadas em sessões reservadas de consulta ou durante as festas públicas de consagração dos juremeiros. A cerimônia mais frequente, no entanto é o Toque da Jurema, sessão pública destinada á consulta verbal ás entidades, por ocasião do transe mediúnico, para atender aos pedidos dos interessados. Em forma de roda, gira, os integrantes cantam e dançam, ao som dos Maracás e Ilus; bebem jurema, consomem bebida alcoólica e fumo, num continuum entre ordem e desordem, marcando o caráter lúdico e transgressor do ritual.

Este registro é belíssimo, trabalho ímpar de nosso mano, o mestre Luiz Assunção (veja a capacidade do homem aqui: http://lassuncao.blogspot.com/ ). Um disco muito bem produzido, com um cuidado poucas vezes visto na escolha de repertório, onde imperou principalmente o respeito incondicional à característica do canto e da interpretação ritual.

Olha Luiz, cabra da peste, que venham mais trabalhos como este do vasto mundo da Encantaria (quem sabe sobre o Baião de Cura, a Barquinha, da Baía do Lençol, do Sebastianismo - origem de tudo - ou as inúmeras manifestações do Daime?), pois é gente como você que traz de volta a unidade perdida das legítimas manifestações religiosas brasileiras, cada vez mais à sombra dos edifícios do nazismo neopentecostal.

Para ouvir a faixa 26, "Jurema, pau de ciência", clique abaixo:




Agora, o especial do Fantástico sobre Jurema!!

Wednesday, September 09, 2009

Bezerra da Silva - O rei do Coco - 1975

Bezerra da Silva - O rei do Coco - LP - Tapecar - 1975

01 - O Rei Do Côco; 02 - Língua Grega; 03 - Valente Na Boca Do Boi; 04 - Côco De Itambé; 05 - Rapa Cuia; 06 - Côco Do Tato; 07 - A Coisa Mudou; 08 - Côco Do B; 09 - O Catimbozeiro; 10 - Vai Chover Hoje, Urubu; 11 - Lei De Bahia; 12- Rima de doê;

Bezerra da Silva (Recife, Pernambuco, 23 de fevereiro de 1927 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 17 de janeiro de 2005) foi o cantor, compositor, percussionista e violonista brasileiro, considerado o embaixador dos morros e favelas. Cantou sobre os problemas sociais encontrados dentro das comunidades, se apresentando no limite da marginalidade e da indústria musical, pois seus principais temas foram os problemas sociais dentro das comunidades. É considerado um dos principais expoentes do samba do estilo partido alto, embora em seu início de carreira tenha começado a cantar cocos e forrós - foi o primeiro zambubeiro da banda de Zé Ramalho.

Desde sua infância foi ligado à música e sempre “sentiu” que tinha o dom de tocar, causando atritos com a família, principalmente com seu pai, da Marinha Mercante que saiu de casa quando Bezerra era pequeno, vindo morar no Rio de Janeiro. Bezerra, depois de também ingressar - e ser expulso - da Marinha, descobriu o paradeiro do pai e veio atrás dele, com o qual foi morar. Após muitas brigas, foi morar sozinho, no Morro do Cantagalo, trabalhando como pintor na construção civil, trabalhando a noite como percussionista. Logo entrou em um bloco carnavalesco, onde um dos componentes o levou para a Rádio Clube do Brasil, em 1950.

Nos anos sessenta, ficou sem emprego e durante sete anos viveu como mendigo nas ruas de Copacabana, onde tentou suicídio e foi “salvo” por um caboclo da Umbanda de um terreiro onde se tornou seguidor. A partir daí passou a atuar como compositor, instrumentista e cantor, gravando seu primeiro compacto em 1969 e o primeiro LP seis anos depois.

Inicialmente gravou músicas sem sucesso, cocos e forrós. Mas a partir da série Partido Alto Nota 10 começou a encontrar seu público. O repertório de seus discos passou a ser abastecido por autores anônimos (alguns usando codinomes para preservar a clandestinidade) e Bezerra notabilizou-se por um estilo Sambandido (ou Gangsta Samba), precursor mesmo do Gangsta Rap norte-americano. Antes do Hip Hop brasileiro, ele passou a transmitir do outro lado da trincheira da guerra civil não declarada: “Malandragem Dá um Tempo“, “Seqüestraram Minha Sogra“, “Defunto Cagüete“, “Bicho Feroz“, “Overdose de Cocada“, “Malandro Não Vacila“, “Meu Pirão Primeiro“, “Lugar Macabro“, “Piranha“, “Pai Véio 171“, “Candidato Caô Caô". Gravou ainda alguns discos de Exu pela antiga gravadora Tapecar e Cáritas, mas sem serem creditados seus vocais.

Morreu em 2005 após virar evangélico (já não estava mais lúcido!), aos 77 anos de idade, perto de completar 78, eternizando-se no mundo do samba.

Para ouvir a faixa 09 "O Catimbozeiro" clique abaixo:



Tuesday, September 01, 2009

Raul Seixas - Krig-Ha, Bandolo! - 1973


Raul Seixas - Krig-Ha, Bandolo! - LP - Phillips - 1973

01-Introdução_Good Rockin' Tonight; 2-Mosca Na Sopa; 03-Metamorfose Ambulante; 04-Dentadura Postiça; 05-As Minas do Rei Salomão; 06-A Hora Do Trem Passar; 07-Al Capone; 08-How Could I know; 09-Rockxixe; 10-Cachorro Urubu; 11-Ouro de Tolo;

Raul Santos Seixas (Salvador, 28 de junho de 1945 — São Paulo, 21 de agosto de 1989), conhecido por "Maluco Beleza", foi um dos maiores gênios da música brasileira, pioneiro do Rock no país. Filho do casal Raul Varella Seixas e Maria Eugênia Seixas, Raul cresceu na cidade de Salvador um tanto estagnada, alheia aos progressos de uma modernidade que passava ao largo da capital baiana. Tinha um irmão, quatro anos mais novo, Plínio Seixas. Em casa obtém uma cultura que o faz adiantar-se àquilo que era ensinado nas escolas, mergulhando nos livros que tinha à disposição, na biblioteca do pai. Até o final de sua vida, sempre foi avançado para sua época, o que é comprovado pelas músicas por ele compostas e que até hoje são executadas. Como seu parceiro musical Paulo Coelho já disse: "Raul Seixas não é passado, é presente! Futuro!".

O público que se acostumou a ouvir no rádio sucessos como "Lágrimas Nos Olhos", com José Roberto, "Ainda Queima A Esperança", com Diana, ou ainda "Playboy", com os Blue Caps e "Doce Doce Amor", com Jerry Adriani (seu grande amigo), nunca imaginaria que todos este hits eram da autoria daquele baiano magérrimo e torto que aparecia sem camisa, costelas à mostra, na capa daquele LP de título estranho (na verdade, "Krig-Ha-Bandolo" era uma frase dita por Tarzan, nos antigos gibis), cujo sucesso, "Ouro De Tolo", estava nos primeiros lugares de todas as rádios do país. A letra desta canção, além de muito inteligente, mostrava a realidade de um cidadão classe média que "devia estar alegre e satisfeito por morar em Ipanema depois de ter passado fome por dois anos na Cidade maravilhosa".

A sonoridade da música se assemelhava a um sucesso de Roberto Carlos da mesma época, "Rotina". Embora o arranjo fosse parecido, a letra não tinha nada a ver com as imagens poéticas da canção do rei. A letra de "Ouro de tolo", na verdade fazia um contra-ponto com outra letra de Roberto, "A Montanha", do ano anterior, 1972. Roberto cantava "obrigado, Senhor, que o Sol nasceu, obrigado Senhor, eu agradeço...". Raul: "...eu devia agradecer ao Senhor por ter tido sucesso na vida..." Devia, mas não agradecia.
Por estas e outras - principalmente pela faixa que nos interessa mais diretamente -, "Krig Há, Bandolo!" foi um dos mais enigmáticos e misteriosos álbuns quando do seu lançamento, em 1973. Repleto de parcerias com Paulo Coelho, este disco lançava também os primeiros sinais da Sociedade Alternativa, com seu repertório de rocks, baladas, gospel, baião e ponto de Umbanda, no clássico "Mosca na sopa", uma verdadeira salada que marcava a estréia em carreira solo daquele que se tornaria a maior lenda do rock nacional. Raul tinha muita informação esotérica e dos cultos afro-brasileiros, claramente influenciado pelos cultos de sua terra natal. Além desta, cita ainda a lei de pemba na música título do álbum "Eu nasci há dez mil anos atrás", onde diz: "Eu vi os símbolos sagrados de Umbanda, eu fui criança prá poder dançar ciranda".


Influenciado por vários setores da cultura - dos quadrinhos a clássicos da filosofia e do ocultismo (Veja a presença constante da cruz ansata que aparece na capa do disco, na palma da mão direita de Raul, ícone que ganharia ainda mais destaque nos discos seguintes.). A letra de "Mosca na sopa" é Schopenhauer: "Se a mosca, que agora zumbe em torno de mim, morre à noite, e na primavera zumbe outra mosca nascida do seu ovo, isso é em si a mesma coisa", mas para não deixar dúvida sobre sua fonte mais rica, em 1983 pegou do filósofo um trecho do capítulo "Morte" - do livro "Dores do Mundo" - para usar na música Nuit: "Quão longa é a noite do tempo sem limites, comparada ao curto sonho da vida".
Raul morreu aos 44 anos em 1989, de diabetes por complicações no fígado devido ao alcoolismo.

Para ouvir a faixa "Mosca na Sopa", clique abaixo:









Aqui, o raríssimo vídeo original, podraço e funhanhado, mas importante:



Thursday, August 27, 2009

Afrique Vol. 1 - Collection du musée de l'homme -1952



Afrique Vol. 1 - Collection du musée de l'homme - VOGUE - LP - 1952

01.Acclamation des femmes; 02.Acclamations des femmes & Tambour Ogbon; 03.Chants des Mariwo; 04.Choeurs et tambours Ogbon; 04.Discours du Revenant et Choeurs des Mariwo; 05.Iwi Engungun; 06.Souhaits des revenants;


Em 1952, Pierre Verger, o famoso Babalawô, fotógrafo e ethnologista, realizou algumas das mais famosas fotos dos Eguns em terra, pois fotografar os Eguns é proibido. Egun é uma máscara, um ancestral divinizado que volta à terra através de rituais onde são invocadas as forças essenciais do morto para que sua força animal preencha as roupas sagradas de que le se serve para atuar novamente no mundo. Pierre Verger realizou este trabalho em parceria com Gilbert Rouget, o grande Etnomusicologista que trabalhou durante um longo período em Benim.



Este disco é raríssimo. Tão raro que até dói o osso ilíaco!! Existem apenas umas 50 cópias dele no mundo inteiro (se é que ainda existem, pois a gravadora o lançou apenas por causa do trabalho de Verger, mas não acreditava que o produto fosse vender), o que leva os colecionadores a se estapearem quando descobrem algumas delas. Eu mesmo dei umas bofetadas em uns três prá conseguir esse. As gravações foram feitas em um gravador de rolo, em condições absolutamente livres de qualquer acústica, no ambiente natural do templo do Benin.

Há o ritmo maravilhoso do tambor Ogbon, os tambores dos Alabês/Babalawôs da sociedade Oshogboni e o os cânticos de invocação das mulheres e dos homens e o cântico de Mariwô, a palha sagrada de Xapanã e Ogum, os senhores da morte, simbolizando a cortina disposta no chão, na forma de esteira, que separa o mundo dos vivos do mundo dos mortos.

E, finalmente, a última faixa, Souhaits des revenants, onde podemos ouvir a raríssima voz do próprio Egun em terra, organizando a comunidade com seus conselhos e orientações.

Para ouvir a faixa "Souhait des Revenants", a voz do Egun, clique abaixo:






Só para ilustrar, um culto a Baba Egun na África, do "Povo "Zangbeto" os Guardiões da Noite, um Culto Ancestral, patriarcal beninense.



Aqui, um emocionante registro de um Baba Egun, filmado em Lauro de Freitas/Bahia no Ase Opo Aganju, onde o Bàbálàwòrìsà é Obaray (Balbino Daniel de Paula), filho de Alapini Pedro... reparem na alegria do pessoal ao receber seu ancestral, por sinal muito simpático e amoroso!!!


Monday, August 24, 2009

KANGOMA NA AVENIDA PAULISTA


Quarta-feira, 26 de agosto, meio dia!
Avenida Paulista, 1313 - Metrô Trianon - MASP
Em frente à FIESP
Te esperamos lá!!

Saturday, August 22, 2009

A importância da música ritual nos cultos brasileiros


O ritmo é uma das forças fundamentais do universo. Todo ritmo descansa em uma sensação física ou psicofísica e nosso sistema nervoso, quando percebe uma serie regular de sons, espera sua repetição ou sua continuação de modo também regular e tem uma acentuada tendência a influenciar os movimentos do próprio corpo. O ritmo é tão importante que se uma pessoa tenta viver fora do ritmo, a natureza o castiga severamente, muito mais do que as criaturas que vivem sem luz, lembrando das criaturas abissais, muitas completamente cegas, que se utilizam de sonares para entenderem o mundo externo. O ritmo é determinado por uma série de unidades, por quantas de expressão e na linguagem oral, a unidade de expressão pode ser desde um grunhido até uma frase complexa, contendo raciocínios perfeitos.

Assim as unidades rítmicas de expressão podem ser sonoras como um suspiro, verbais como uma palavra ou ideológicas como um conceito. O ritmo da linguagem não só se desenvolve segundo as unidades de expressão fonética, mas compreende ainda, as emotivas e mentais, perfazendo várias unidades de ritmo contidas num mesmo discurso. O canto e a risada, a cólera e a alegria buscam um canal rítmico quando um ser humano trata de comunicar seu sentimento a outro ser humano. O sentido acústico da audição tem por fundamento o sentido muscular do esforço e não funciona senão em relação a este último, ou seja a expressão das emoções, quando é traduzida para elementos sonoros visando a comunicação auditiva, combina-se através do inconsciente com a expressão muscular do movimento e se conectam com o sistema nervoso através das formas rítmicas. E muitas emoções internas do ser humano por não possuírem conexões musculares e não se ligarem diretamente com nenhum pensamento determinado, encontram sua exteriorização na música através do ritmo.

Sons são emissões que são interpretadas segundo os pulsos corporais, somáticos e psíquicos. A música está na intersecção em que diferentes freqüências se combinam e se interpretam porque se interpenetram e o pulso na música se apresenta através dos ritmos somáticos (por exemplo o sanguíneo) e ritmos psíquicos (ondas cerebrais). Ambos operam em diferentes faixas de onda, em frequencias sonoras que se apresentam basicamente em duas grandes dimensões: as durações e as alturas (durações rítmicas e melódico-harmônicas). Daí a orquestra de terreiro influenciar as pessoas psíquica e corporalmente e de acordo com a mensagem dos pontos cantados, excitarem e impressionarem o psiquismo como um carimbo através das letras das cantigas e melodias.



A batida de um tambor é um pulso rítmico. Ele emite frequências perceptíveis como recortes de tempo, onde inscreve suas recorrências e variações. Se estas frequencias forem tocadas por um músico ou um instrumento capaz de acelerá-las na medida de dez ciclos por segundo, há um salto para outro patamar, o da altura melódica. A partir de um certo limiar em torno de quinze ciclos por segundo, estabilizando em cem e disparando ao agudo até a faixa possível de se ouvir de quinze mil hertz, o ritmo vira melodia. Nosso ouvido só percebe sinais discretos, separados (portanto rítmicos) até a barreira aproximada de dez hertz (ciclos por segundo). Entre dez e cerca de quinze hertz o som entra numa faixa difusa e indefinida entre a duração e a altura, que se define depois, através da sensação do som melódico (quando a o período das vibrações nos permite escutar a identidade de um possível dó, mi, lá ou si). É aí que se dá o salto qualitativo, pois muda o parâmetro da escuta. Passamos a ouvir todas as variantes que vão do grave ao agudo, o campo das tessituras – assim é chamado o espectro das alturas. E é aqui, nesse campo, que há o enlace corporal e assim, o som grave tende a ser associado ao peso da matéria, com vibrações mais lentas e pesadas, em oposição à leveza e velocidade da sensação do agudo...

E é assim que se processa, dentro de um rito de Umbanda (seja ligado às nações, encantarias, ou mesmo a rituais onde não há o uso de atabaques), as tensões necessárias ao êxtase e instase ritual, pois o clímax é atingido pelo inconsciente que se liga à descrição ritual e se abre às possibilidades de conexão com as consciências de outras esferas. O ritmo está presente no canto (nos terreiros que só cantam) nas palmas, nos instrumentos de percussão e mesmo nas orações e em sua estrutura poética e sua construção invocativa e evocativa.

E é pela relação do som grave com o corpo, que o atabaque RUM, o maior dos três (Os outros são o Rumpi, médio e o Lê, pequeno - nomenclatura Gêge) – induz ao transe mediúnico ou anímico, independentemente do culto que se exerça.

Encerrando, diremos que a música e os pontos cantados são o único elo existente entre todos os templos do Brasil e do mundo (pensemos, por exemplo, nas Américas... os cultos cubanos, por exemplo, de Palo Monte, Arará e Regla de Ocha são muitíssimo similares aos nossos). Nada mais fala tão forte pela unidade ritualística e pela origem comum de todos os terreiros e é a música que abre as portas de conexão com os mundos hiperlativos.

Daí nossa preocupação com os ditos festivais de curimba. É preciso saber que há uma grande diferença entre o que é sagrado e profano, entre ritualizar dentro dos templos com parcimônia, seriedade e consciência de que invocamos potestades sutilíssimas, puras e sumamente poderosas e de que estamos lidando com o inconsciente e com a saúde física, emocional, mental e espiritual de quem acorre a nossos templos ou de levarmos à clubes, estádios e praças a nossa música e toques, simulando contatos mediúnicos em ambientes inadequados e objetivarmos as disputas, vaidades e concorrência em nome do espiritual.

A escolha entre essas duas opções mostra muito bem o estado espiritual de quem o faz. Pois como diz a lenda do Ayom:

Xangô não perdoa quem profana o tambor.

Ayan Irê Ö!!

Obashanan